terça-feira, 3 de julho de 2012


Elogie do jeito certo

Recentemente um grupo de crianças pequenas passou por um teste muito interessante[1]. Psicólogos propuseram uma tarefa de média dificuldade, mas que as crianças executariam sem grandes problemas. Todas conseguiram terminar a tarefa depois de certo tempo. Em seguida, foram divididas em dois grupos.

O grupo A foi elogiado quanto à inteligência. “Uau, como você é inteligente!”, “Que esperta que você é!”, “Menino, que orgulho de ver o quanto você é genial!” ... e outros elogios à capacidade de cada criança.

O grupo B foi elogiado quanto ao esforço. “Menina, gostei de ver o quanto você se dedicou na tarefa!”, “Menino, que legal ter visto seu esforço!”, “Uau, que persistência você mostrou. Tentou, tentou, até conseguir, muito bem!” ... e outros elogios relacionados ao trabalho realizado e não à criança em si.

Depois dessa fase, uma nova tarefa de dificuldade equivalente à primeira foi proposta aos dois grupos de crianças. Elas não eram obrigadas a cumprir a tarefa, podiam escolher se queriam ou não, sem qualquer tipo de consequência.

As respostas das crianças surpreenderam. A grande maioria das crianças do grupo A simplesmente recusou a segunda tarefa. As crianças não queriam nem tentar. Por outro lado, quase todas as crianças do grupo B aceitaram tentar. Não recusaram a nova tarefa.

A explicação é simples e nos ajuda a compreender como elogiar nossos filhos e nossos alunos. O ser humano foge de experiências que possam ser desagradáveis. As crianças “inteligentes” não querem o sentimento de frustração de não conseguir realizar uma tarefa, pois isso pode modificar a imagem que os adultos têm delas. “Se eu não conseguir, eles não vão mais dizer que sou inteligente”. As “esforçadas” não ficam com medo de tentar, pois mesmo que não consigam é o esforço que será elogiado. Nós sabemos de muitos casos de jovens considerados inteligentes não passarem no vestibular, enquanto aqueles jovens “médios” obterem a vitória. Os inteligentes confiaram demais em sua capacidade e deixaram de se preparar adequadamente. Os outros sabiam que se não tivessem um excelente preparo não seriam aprovados e, justamente por isso, estudaram mais, resolveram mais exercícios, leram e se aprofundaram melhor em cada uma das disciplinas.

No entanto, isso não é tudo. Além dos conteúdos escolares, nossos filhos precisam aprender valores, princípios e ética. Precisam respeitar as diferenças, lutar contra o preconceito, adquirir hábitos saudáveis e construir amizades sólidas. Não se consegue nada disso por meio de elogios frágeis, focados no ego de cada um. É preciso que sejam incentivados constantemente a agir assim. Isso se faz com elogios, feedbacks e incentivos ao comportamento esperado.

Nossos filhos precisam ouvir frases como: “Que bom que você o ajudou, você tem um bom coração”, “parabéns meu filho por ter dito a verdade apesar de estar com medo... você é ético”, “filha, fiquei orgulhoso de você ter dado atenção àquela menina nova ao invés de tê-la excluído como algumas colegas fizeram... você é solidária”, “isso mesmo filho, deixar seu primo brincar com seu videogame foi muito legal, você é um bom amigo”. Elogios desse tipo estão fundamentados em ações reais e reforçam o comportamento da criança que tenderá a repeti-los. Isso não é “tática” paterna, é incentivo real.

Por outro lado, elogiar superficialidades é uma tendência atual. “Que linda você é amor”, “acho você muito esperto meu filho”, “Como você é charmoso”, “que cabelo lindo”, “seus olhos são tão bonitos”. Elogios como esses não estão baseados em fatos, nem em comportamentos, nem em atitudes. São apenas impressões e interpretações dos adultos. Em breve, crianças como essas estarão fazendo chantagens emocionais, birras, manhas e “charminhos”. Quando adultos, não terão desenvolvido resistência à frustração e a fragilidade emocional estará presente.

Homens e mulheres de personalidade forte e saudável são como carvalhos que crescem nas encostas de montanhas. Os ventos não os derrubam, pois cresceram na presença deles. São frondosos, copas grandes e o verde de suas folhas mostra vigor, pois se alimentaram da terra fértil.

Que nossos filhos recebam o vento e a terra adubada por nossa postura firme e carinhosa.

MARCOS MEIER é mestre em Educação, psicólogo, escritor e palestrante.

Seus textos encontram-se no site www.marcosmeier.com.br e seus livros no www.kapok.com.br.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Criar...


Não há bônus sem ônus

Provérbio Latino



Para acordar pela manhã, levantar da cama e atravessar o quarto, você paga um preço, um ônus. A energia necessária foi acumulada nas horas, dias e semanas anteriores, enquanto você se alimentava, exercitava e descansava. Sem isso, você nem mesmo acordaria.

Dar um beijo, escrever uma carta, pegar um ônibus, dirigir um carro, pensar, fazer escolhas, colocar um produto no mercado, respirar, defender-se, atacar, amar, recuar, observar, viver... tudo exige um preço, um ônus, uma transformação.

Este é um Princípio Natural conhecido por qualquer atleta. Suspenda os exercícios, comece a comer como um cavalo e beba álcool, como nos absurdos comerciais de TV, e a sua saúde e carreira vão para o buraco e levam você junto.

Tudo são resultados. Tudo é transformação. Tudo é repetição sistemática.

Um velejador não tenta mudar os ventos. Um velejador muda as velas de sua embarcação. Ele transforma o vento em energia para mover seu barco; o ônus é virar as velas para transformar o vento.

Para criar um sistema solar inteiro, ou um pingo d'água, o próprio universo é obrigado a obedecer este princípio natural: para criar algo, é necessário gastar algo. Para fazer uma gota de água, o poderoso universo é obrigado a usar e transformar o vapor, que já existe. Nem mesmo ele pode "criar" uma gota d'água do nada. É necessário transformar e usar uma coisa que já está aqui, para fazer outra. O universo abre mão do vapor, para obter a gota.

Não lute contra isso. Use isso.

Isso significa que aquele seu sonho, aquele seu desejo, aquela sua vontade de fazer algo, pode ser realizada desde que você transforme alguma coisa naquilo que deseja. É necessário pagar um preço, um ônus, para conseguir o que você busca. As vezes, é necessário abrir mão de algo que você gosta para ter algo muito melhor, que você também gosta. Com muita freqüência, a escolha recai sobre o modo como você usa seu tempo. Mas a melhor parte é que o ônus não é ruim, nem bom; apenas necessário. Muitas vezes o ônus é exatamente a parte divertida.

Quer viver mais e melhor? o ônus é exercitar-se e escolher o que você come todos os dias. Quer o conhecimento? o ônus é investigar e estudar o assunto todos os dias. Quer o amor? O ônus é amar todos os dias. Quer clientes? O ônus é oferecer produtos melhores todos os dias. Quer filhos? O ônus é dedicar parte de sua vida a eles todos os dias. Quer ser feliz? O ônus é fazer alguém feliz todos os dias. Como diz o provérbio latino, "não há bônus, sem ônus". Isso vale para tudo e todos.

Naturalmente, haverá tufões e furacões que acabarão virando seu veleiro e afundando seu projeto, em alguns momentos da vida. Prepare-se para esse dia e, quando chegar, recupere-se para voltar depois do furacão. E volte mais forte, se possível, ou mais fraco, se necessário, volte mais experiente, se possível, ou mais humilde, se o afundamento tiver sido causado por arrogância,mas, acima de tudo, v o l t e.

Você também é um resultado. Você também está se transformando. Você também é um sonho se realizando.

Comece a construir seu castelo exatamente a partir de onde você está agora. Se existe somente barro fofo e pedra lascada, construa os primeiros tijolos. Comece a transformar seu mundo.

Comece a pagar o ônus o mais cedo possível. Quanto mais cedo você começar e quanto mais vezes você repetir o pagamento, mais cedo colherá os resultados. Então, por que não começar logo? Comece AGORA.

Aldo Novak